{"id":3240,"date":"2025-12-18T14:54:05","date_gmt":"2025-12-18T17:54:05","guid":{"rendered":"https:\/\/cristalvoxnews.com.br\/?p=3240"},"modified":"2025-12-18T14:54:07","modified_gmt":"2025-12-18T17:54:07","slug":"santa-catarina-e-o-dilema-brasileiro-do-futuro-pos-carvao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cristalvoxnews.com.br\/?p=3240","title":{"rendered":"Santa Catarina e o dilema brasileiro do futuro p\u00f3s-carv\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Por <a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/maur%C3%ADcio-frighetto\/person-44966884\">Maur\u00edcio Frighetto<\/a> in <em>Deutsche Welle<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Com lei federal pr\u00f3pria de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, setor precisa resolver a polui\u00e7\u00e3o ambiental e clim\u00e1tica, al\u00e9m de encontrar alternativas para trabalhadores, cidades e ind\u00fastrias.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto caminhava sobre rejeitos de carv\u00e3o mineral em Urussanga, no sul de&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/regi%C3%A3o-sul\/t-72201643\">Santa Catarina<\/a>&nbsp;, em 20 de novembro, o pedreiro Sidnei Casagranda, de 55 anos, enumerava as reivindica\u00e7\u00f5es da comunidade: um asfalto at\u00e9 a cidade vizinha Lauro M\u00fcller; a recupera\u00e7\u00e3o do solo; e a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/polui%C3%A7%C3%A3o\/t-75014973\">despolui\u00e7\u00e3o<\/a>&nbsp;dos rios. &#8220;S\u00f3 isso&#8221;, disse rindo, ao se dar conta da complexidade das demandas.<\/p>\n\n\n\n<p>Casagranda mostrava \u00e0 DW uma &#8220;paisagem lunar&#8221;, como s\u00e3o chamadas as \u00e1reas degradadas pela minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o: cinza, com buracos que parecem crateras e praticamente sem vida. Ao contr\u00e1rio da lua, no entanto, o cen\u00e1rio inclu\u00eda po\u00e7as e cursos de \u00e1gua em tons amarelo e laranja. A colora\u00e7\u00e3o resulta da drenagem \u00e1cida de mina (DAM), uma rea\u00e7\u00e3o qu\u00edmica que libera \u00e1cido e metais t\u00f3xicos.<\/p>\n\n\n\n<p>O Rio Carv\u00e3o, que d\u00e1 nome \u00e0 comunidade de Casagranda, ainda sofre com os impactos da minera\u00e7\u00e3o, mesmo que as minas na regi\u00e3o tenham sido fechadas h\u00e1 anos. A elevada acidez da \u00e1gua praticamente inviabiliza seu uso pela popula\u00e7\u00e3o e compromete a sobreviv\u00eancia de peixes e outros animais.<\/p>\n\n\n\n<p>Quase todo o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/combust%C3%ADveis-f%C3%B3sseis\/t-75015926\">carv\u00e3o<\/a>&nbsp;do sul de&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/santa-catarina\/t-75230823\">Santa Catarina<\/a>&nbsp;se transforma em energia el\u00e9trica no Complexo Termel\u00e9trico Jorge Lacerda (CTJL), em Capivari de Baixo, gerando gases do&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/emiss%C3%B5es-de-gases-de-efeito-de-estufa-caem-17-no-brasil-em-2024\/a-74597552\">efeito estufa<\/a>&nbsp;, que causam o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/aquecimento-global\/t-44898615\">aquecimento global<\/a>&nbsp;. Segundo um estudo do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), o complexo, considerando suas tr\u00eas usinas, foi o maior emissor entre as t\u00e9rmicas brasileiras analisadas em 2024.<\/p>\n\n\n\n<p>O impacto ambiental e clim\u00e1tico, do passado e do presente, \u00e9 um dos maiores desafios da&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/transi%C3%A7%C3%A3o-energ%C3%A9tica-na-alemanha-com-carv%C3%A3o-sujo-da-col%C3%B4mbia\/a-67573844\">transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica<\/a>&nbsp;na regi\u00e3o. Soma-se a isso a pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria carbon\u00edfera, respons\u00e1vel por movimentar cerca de R$ 6 bilh\u00f5es anuais e por gerar empregos diretos e indiretos \u2013 as estimativas variam entre 20 mil e 100 mil.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 bons motivos para observar o sul de Santa Catarina no contexto da busca por solu\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. Em 2022, uma lei federal criou o Programa de Transi\u00e7\u00e3o Energ\u00e9tica Justa (TEJ) voltado apenas para a regi\u00e3o, que deve considerar os impactos ambientais, econ\u00f4micos e sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Quatro anos ap\u00f3s a san\u00e7\u00e3o da lei, a principal medida foi a assinatura do novo contrato com o CTJL que prorrogou o uso da termel\u00e9trica at\u00e9 2040. De acordo com a Diamante Gera\u00e7\u00e3o de Energia, propriet\u00e1ria do complexo, naquele ano os equipamentos atingir\u00e3o seu final de vida \u00fatil.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Entre gases e subs\u00eddios<\/h2>\n\n\n\n<p>O setor est\u00e1 trabalhando para &#8220;reinventar&#8221; a ind\u00fastria do carv\u00e3o, afirmou o presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira do Carbono Sustent\u00e1vel (ABCS), Fernando Luiz Zancan. &#8220;A ideia \u00e9 investir em tecnologias para resolver o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/o-que-%C3%A9-poss%C3%ADvel-fazer-para-reduzir-co2-na-atmosfera\/a-74746053\">problema da emiss\u00e3o de g\u00e1s de efeito estufa<\/a>&nbsp;. N\u00e3o \u00e9 acabar com o carv\u00e3o, \u00e9 acabar com o g\u00e1s de efeito estufa.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Zancan trabalha h\u00e1 45 anos defendendo os interesses do setor. Com apoio de pol\u00edticos do Sul do pa\u00eds, atuou para prorrogar o contrato do CTJL e, neste ano, das outras termel\u00e9tricas a carv\u00e3o at\u00e9 2040.<\/p>\n\n\n\n<p>A SATC, institui\u00e7\u00e3o de ensino e neg\u00f3cios da qual Zancan \u00e9 diretor-executivo, est\u00e1 produzindo uma planta piloto para capturar di\u00f3xido de carbono (CO2). O setor tamb\u00e9m est\u00e1 de olho nas tecnologias chinesas. &#8220;O chin\u00eas est\u00e1 fazendo algo similar, s\u00f3 que est\u00e1 escalonando. N\u00f3s ainda estamos remando na planta piloto.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Para o Gerente de Transi\u00e7\u00e3o Energ\u00e9tica do Instituto Internacional Arayara, John Wurdig, a lei catarinense \u00e9 fruto de interesses. &#8220;O lobby do setor do carv\u00e3o criou essa lei falsa da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. A transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica em Santa Catarina \u00e9 do carv\u00e3o mineral para o carv\u00e3o mineral.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Na an\u00e1lise de Wurdig, a lei n\u00e3o previu o abatimento das emiss\u00f5es dos gases do efeito estufa. Al\u00e9m disso, o instituto, junto com a Frente Nacional dos Consumidores de Energia (FNCE), questiona os subs\u00eddios destinados ao carv\u00e3o, que giram em torno de R$ 1 bilh\u00e3o por ano.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com um estudo do Arayara, entre 2010 e 2024, R$ 12 bilh\u00f5es foram desembolsados para pagar o carv\u00e3o consumido em&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/por-que-o-brasil-ainda-aposta-em-termel%C3%A9tricas\/a-72700747\">tr\u00eas usinas brasileiras<\/a>&nbsp;por meio da Conta de Desenvolvimento Energ\u00e9tico (CDE). Jorge Lacerda recebeu a maior fatia, quase R$ 10 bilh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo um relat\u00f3rio da Empresa de Pesquisa Energ\u00e9tica (EPE), a conta anual estimada para a nova contrata\u00e7\u00e3o a partir de 2026 \u00e9 de 1,89 bilh\u00e3o. Desse total, pouco mais de R$ 1 bilh\u00e3o dever\u00e1 cobrir a compra de 2,4 milh\u00f5es de toneladas de carv\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A Diamante, assim como a ABCS, discorda do&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/energia-mais-cara-e-poluente-os-desafios-do-setor-energ%C3%A9tico-no-pr%C3%B3ximo-governo\/a-63574228\">termo &#8220;subs\u00eddio&#8221;<\/a>&nbsp;, que \u00e9 usado pela Ag\u00eancia Nacional de Energia El\u00e9trica (Aneel). Chama de &#8220;um mecanismo financeiro&#8221; para viabilizar a manuten\u00e7\u00e3o do carv\u00e3o nacional como fonte energ\u00e9tica segura, funcionando como apoio \u00e0s renov\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>A empresa citou tamb\u00e9m um estudo da consultoria Thymos, segundo o qual a CTJL teria evitado que o pa\u00eds gastasse R$ 13,2 bilh\u00f5es a mais em energia entre 2006 e 2022. A an\u00e1lise considerou um cen\u00e1rio em que o complexo fosse substitu\u00eddo por outras t\u00e9rmicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do f\u00edsico D\u00e9lcio Rodrigues, diretor-executivo do Instituto ClimaInfo, o Brasil n\u00e3o precisa depender das t\u00e9rmicas a carv\u00e3o para garantir seguran\u00e7a energ\u00e9tica. Al\u00e9m de responderem por 1,9% da eletricidade gerada em 2024, o pa\u00eds vive hoje um excedente de oferta \u2013 o que tem levado, inclusive, a cortes na gera\u00e7\u00e3o das renov\u00e1veis. &#8220;Nesse cen\u00e1rio, n\u00e3o faz o menor sentido investir em energia a partir do carv\u00e3o. \u00c9 uma energia cara e suja.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Justa para quem?<\/h2>\n\n\n\n<p>Os trabalhadores do setor foram favor\u00e1veis \u00e0 recontrata\u00e7\u00e3o do CTJL. Mas, pelo menos at\u00e9 agora, viram poucas iniciativas em dire\u00e7\u00e3o a uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica justa. Em julho, uma mina foi fechada em Treviso, causando a demiss\u00e3o de cerca de 180 funcion\u00e1rios. &#8220;Os trabalhadores n\u00e3o tiveram transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica justa. Todo mundo fala, mas, na pr\u00e1tica, n\u00e3o estamos vendo resultados&#8221;, avaliou o presidente do Sindicato dos Mineiros de Sider\u00f3polis, Cocal do Sul e Treviso, Leonor Jos\u00e9 Rampinelli.<\/p>\n\n\n\n<p>Um m\u00eas antes, o governo catarinense havia contratado a Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV) para desenvolver o Plano de Transi\u00e7\u00e3o Energ\u00e9tica Justa \u2013 o estado tamb\u00e9m aprovou uma lei semelhante \u00e0&nbsp;federal. O estudo vai contemplar as quest\u00f5es ambientais e medidas de prote\u00e7\u00e3o social e pol\u00edticas, incluindo trabalhadores, comunidades e economia regional.<\/p>\n\n\n\n<p>A Secretaria de Estado do Meio Ambiente e da Economia Verde (Semae) informou ter monitorado a situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. No entanto, como o estudo ainda est\u00e1 em fase inicial, alegou n\u00e3o haver &#8220;diretrizes para orientar a ado\u00e7\u00e3o de medidas concretas e baseadas em evid\u00eancias cient\u00edficas com rela\u00e7\u00e3o a esse caso espec\u00edfico&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Claudemir Sousa foi um dos trabalhadores demitidos. Enquanto grande parte dos ex-funcion\u00e1rios da mina conseguiu recoloca\u00e7\u00e3o, segundo o sindicato, o mineiro tem feito bicos e distribu\u00eddo curr\u00edculos para outras mineradoras.<\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho \u00e9 duro, ele disse. &#8220;Tu baixa 70 metros no subsolo e anda mais dois a tr\u00eas quil\u00f4metros para chegar na frente de servi\u00e7o. A ventila\u00e7\u00e3o \u00e9 artificial. Tu cansa mais do que trabalhar na superf\u00edcie. Sem contar a falta de ergonomia. Cansa para respirar.&#8221; Apesar dos desafios e dos riscos, o sal\u00e1rio mais alto que das outras empresas da regi\u00e3o o atraiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Genoir Jos\u00e9 dos Santos, presidente da Federa\u00e7\u00e3o Interestadual dos Trabalhadores em Extra\u00e7\u00e3o de Carv\u00e3o do Sul do Pa\u00eds (PR\/RS\/SC), mostra preocupa\u00e7\u00e3o. &#8220;Se n\u00e3o houver empregos que mantenham o mesmo n\u00edvel financeiro dos trabalhadores, se n\u00e3o houver empresas que fa\u00e7am a movimenta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dos munic\u00edpios onde h\u00e1 a extra\u00e7\u00e3o do min\u00e9rio, ela [a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica] deixa de ser justa.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto esperam medidas concretas, os trabalhadores buscam melhorar a aposentadoria por meio do Projeto de Lei Complementar 66\/2025, apresentado pela deputada Ana Paula Lima (PT). Al\u00e9m do cen\u00e1rio de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, a parlamentar citou os riscos da profiss\u00e3o, como acidentes, doen\u00e7as respirat\u00f3rias e exposi\u00e7\u00e3o a contamina\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Tamb\u00e9m \u00e9 preocupante a taxa de mortalidade por acidente de trabalho, que \u00e9 muito mais alta no setor de minera\u00e7\u00e3o. Os altos \u00edndices de acidente t\u00eam reflexo forte na vida das fam\u00edlias, al\u00e9m de provocarem depress\u00e3o e traumas nos trabalhadores&#8221;, escreveu Lima na justificativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Os trabalhadores tamb\u00e9m esperam pelas a\u00e7\u00f5es do governo federal. O Conselho do Programa de Transi\u00e7\u00e3o Energ\u00e9tica Justa est\u00e1 inativo desde o in\u00edcio do governo Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, h\u00e1 tr\u00eas anos. A DW questionou a Casa Civil, mas n\u00e3o obteve resposta.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Mitiga\u00e7\u00e3o e outros poluentes<\/h2>\n\n\n\n<p>Em 2020, a Engie Brasil criou um grupo de trabalho para avaliar o encerramento das atividades do CTJL at\u00e9 2025, seguindo a estrat\u00e9gia global da empresa de descarboniza\u00e7\u00e3o. Pouco antes da aprova\u00e7\u00e3o da lei de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, o complexo foi comprado pela Diamante.<\/p>\n\n\n\n<p>A empresa disse investir em projetos de captura de CO2 e mitigar 10% de suas emiss\u00f5es com o aproveitamento das cinzas do carv\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o de cimento. Justificou a quantidade de gases do efeito estufa por ser a &#8220;t\u00e9rmica que mais produz energia t\u00e9rmica, necess\u00e1ria para equilibrar o sistema&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O 5\u00ba Invent\u00e1rio de Emiss\u00f5es Atmosf\u00e9ricas em Usinas Termel\u00e9tricas, divulgado nesta quarta-feira (17\/12) pelo IEMA, mostra um quadro diferente. Em 2024, por exemplo, o CTJL produziu 10% da energia, mas respondeu por 16,7% da emiss\u00e3o de gases de efeito estufa. J\u00e1 o Complexo Parna\u00edba, movido a g\u00e1s natural, gerou 18,6% da energia e emitiu 12,7%. &#8220;O Complexo Parna\u00edba gerou 85% mais que o Complexo Jorge Lacerda e suas emiss\u00f5es foram 25% menores&#8221;, analisou Ra\u00edssa Gomes, pesquisadora do instituto.<\/p>\n\n\n\n<p>As usinas de Jorge Lacerda tamb\u00e9m lideram outro ranking: s\u00e3o as que mais emitem \u00d3xido de Nitrog\u00eanio (NO\u2093). Esses gases, em concentra\u00e7\u00f5es elevadas, podem gerar problemas ambientais e de sa\u00fade p\u00fablica, segundo o IEMA.<\/p>\n\n\n\n<p>A empresa n\u00e3o contestou as informa\u00e7\u00f5es do \u00d3xido de Nitrog\u00eanio (NO\u2093). Mas disse que mant\u00e9m tr\u00eas esta\u00e7\u00f5es de medi\u00e7\u00e3o de qualidade do ar e uma esta\u00e7\u00e3o meteorol\u00f3gica, cujos dados s\u00e3o enviados aos \u00f3rg\u00e3os ambientais, prefeituras, c\u00e2maras de vereadores e demais partes interessadas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Contamina\u00e7\u00e3o de propriedades<\/h2>\n\n\n\n<p>Ronaldo Kock Nunes, de 68 anos, possui uma propriedade ao lado do CTJL, onde planta arroz e soja. No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, ap\u00f3s fortes chuvas, sua terra foi atingida por rejeitos de carv\u00e3o que estavam em um dique. Na \u00e9poca, o complexo era de propriedade da Eletrosul. Quase 30 anos depois, ele recebeu uma indeniza\u00e7\u00e3o de R$ 380 mil em um acordo na Justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos, Nunes e H\u00e9lio Garbellotto, que tamb\u00e9m possui uma propriedade na regi\u00e3o, notaram redu\u00e7\u00e3o na produtividade. Ent\u00e3o contrataram especialistas em biologia, geologia e agronomia para avaliar a poss\u00edvel polui\u00e7\u00e3o. Os tr\u00eas laudos t\u00e9cnicos detectaram presen\u00e7a da drenagem \u00e1cida de mina (DAM), que contaminou o solo e as \u00e1guas superficiais e subterr\u00e2neas.<\/p>\n\n\n\n<p>A bi\u00f3loga Patricia Figueiredo Corr\u00eaa, doutora em ci\u00eancias ambientais, escreveu que a recupera\u00e7\u00e3o das \u00e1reas \u00e9 &#8220;praticamente invi\u00e1vel&#8221;. &#8220;A aus\u00eancia generalizada de fauna, tanto aqu\u00e1tica quanto terrestre, nas propriedades avaliadas constitui evid\u00eancia contundente de degrada\u00e7\u00e3o ambiental grave, compat\u00edvel com os efeitos diretos e indiretos da presen\u00e7a cont\u00ednua de DAM na regi\u00e3o.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A Diamante disse que tomou conhecimento dos laudos. &#8220;Imediatamente a Diamante contratou empresa especializada para avaliar os estudos apresentados, e os contralaudos emitidos por essa empresa conclu\u00edram que n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias de contamina\u00e7\u00e3o do solo originada pelas atividades do Complexo Termel\u00e9trico Jorge Lacerda.&#8221; A empresa n\u00e3o disponibilizou o documento t\u00e9cnico.<\/p>\n\n\n\n<p>O Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal em Santa Catarina (MPF-SC) abriu um Inqu\u00e9rito Civil P\u00fablico, no fim de outubro, para avaliar a origem da polui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A DW esteve na propriedade de Nunes em novembro. A \u00e1gua de um canal de drenagem, exatamente na divisa entre sua planta\u00e7\u00e3o e o CTJL, estava amarelada. A cor era muito semelhante \u00e0 do Rio Carv\u00e3o, em Urussanga.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">D\u00e9cadas de recupera\u00e7\u00e3o ambiental<\/h2>\n\n\n\n<p>Em 1994, o MPF-SC ajuizou a A\u00e7\u00e3o P\u00fablica do Carv\u00e3o (ACP do Carv\u00e3o) contra empresas mineradoras e a Uni\u00e3o Federal. Pedia a recupera\u00e7\u00e3o dos danos ambientais causados no sul de Santa Catarina.<\/p>\n\n\n\n<p>A senten\u00e7a \u00e9 de 2000. Inicialmente, a recupera\u00e7\u00e3o do solo deveria ocorrer em tr\u00eas anos, e a dos recursos h\u00eddricos, em 10 anos. &#8220;N\u00f3s estamos h\u00e1 25 anos e n\u00e3o temos at\u00e9 o momento nenhuma \u00e1rea descomissionada. Descomissionada \u00e9 considerada \u00e1rea integralmente recuperada&#8221;, avaliou a ju\u00edza Camila Lapolli de Moraes, da 4\u00aa Vara Federal de Crici\u00fama (SC).<\/p>\n\n\n\n<p>A ju\u00edza, no entanto, v\u00ea avan\u00e7os &#8220;gigantescos&#8221;. &#8220;Quando veio essa senten\u00e7a, no ano 2000, n\u00f3s t\u00ednhamos pilhas de rejeitos, paisagens lunares expostas. A cidade cheirava muito mal. T\u00ednhamos um cheiro de ovo podre. Fora o aspecto negativo para a comunidade.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a ju\u00edza, uma das principais quest\u00f5es discutidas no Grupo T\u00e9cnico de Assessoramento \u00e0 Execu\u00e7\u00e3o da Senten\u00e7a (GTA) \u00e9 a recupera\u00e7\u00e3o das \u00e1guas subterr\u00e2neas e profundas. O grupo vive um momento descrito como &#8220;freio de arruma\u00e7\u00e3o&#8221;, para avaliar o que funcionou e o que pode ser melhorado para chegar ao descomissionamento das \u00e1reas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao todo, cerca de 6,5 mil hectares de solo e 1,2 mil quil\u00f4metros de rios foram impactados at\u00e9 1989. Segundo o \u00faltimo relat\u00f3rio dispon\u00edvel do GTA, de 2022, 8,85% da \u00e1rea est\u00e1 classificada na categoria rejeito ou est\u00e9ril exposto, como as &#8220;paisagens lunares&#8221; da comunidade de Rio Carv\u00e3o. O relat\u00f3rio, contudo, faz ressalvas. Parte da vegeta\u00e7\u00e3o introduzida est\u00e1 sobre os rejeitos, com potencial de gerar polui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora tamb\u00e9m tenha havido melhoras, a polui\u00e7\u00e3o permanece nos rios de tr\u00eas bacias hidrogr\u00e1ficas: Ararangu\u00e1, Urussanga e Tubar\u00e3o. O Potencial Hidrogeni\u00f4nico (pH) foi classificado como ruim (menor que 4,5) em 781,7 quil\u00f4metros, ou seja, 63% das \u00e1guas impactadas.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o professor de Ci\u00eancias Ambientais e Engenharia Ambiental e Sanit\u00e1ria da Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC), Carlyle Torres Bezerra de Menezes, com o PH abaixo de 4,5 &#8220;n\u00e3o tem nenhuma vida mais desenvolvida, peixe n\u00e3o consegue sobreviver mais&#8221;. Al\u00e9m disso, alertou o professor, h\u00e1 outros metais na \u00e1gua que causam preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Polui\u00e7\u00e3o acima dos limites seguros<\/h2>\n\n\n\n<p>A bi\u00f3loga e pesquisadora Graziela Dias Blanco disse que o GTA tamb\u00e9m n\u00e3o avalia todos os elementos-tra\u00e7o, subst\u00e2ncias qu\u00edmicas capazes de contaminar a biodiversidade e afetar a sa\u00fade humana. E criticou a aus\u00eancia de investiga\u00e7\u00f5es sobre os impactos diretos na popula\u00e7\u00e3o. &#8220;Trata-se de uma \u00fanica sa\u00fade. N\u00e3o existe separa\u00e7\u00e3o entre a sa\u00fade das pessoas e a do ecossistema. Tudo est\u00e1 interconectado.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua tese de doutorado no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ecologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Blanco constatou que ao menos 65% dos moradores entrevistados da regi\u00e3o usavam plantas para alimenta\u00e7\u00e3o ou uso medicinal em \u00e1reas abandonadas pela minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisadora analisou com mais profundidade a esp\u00e9cie mais mencionada pelos entrevistados \u2013 a carqueja (Baccharis sagittalis), usada na prepara\u00e7\u00e3o de ch\u00e1s. Todas as amostras apresentaram concentra\u00e7\u00f5es de c\u00e1dmio (Cd) e chumbo (Pb) acima dos limites seguros.<\/p>\n\n\n\n<p>A DW perguntou tamb\u00e9m ao professor Menezes, da Unesc, se, mesmo com a evolu\u00e7\u00e3o das t\u00e9cnicas de extra\u00e7\u00e3o e beneficiamento do carv\u00e3o, o impacto continua. &#8220;Sim, porque \u00e9 inerente \u00e0 pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o do ponto de vista das caracter\u00edsticas do carv\u00e3o, geol\u00f3gica, geomorfol\u00f3gica, hidrol\u00f3gica.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Para o professor, a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, assim como a recupera\u00e7\u00e3o ambiental, precisava ser mais r\u00e1pida. &#8220;N\u00e3o pode ser postergada sempre, indefinidamente, para 2040, 2050, e a gente n\u00e3o sabe at\u00e9 quando. Ela precisa ser de fato j\u00e1, com pol\u00edticas sociais e econ\u00f4micas de amparo aos trabalhadores.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">&#8220;Tiraram o lucro e deixaram o resto para tr\u00e1s&#8221;<\/h2>\n\n\n\n<p>Sidnei Casagranda nunca trabalhou como mineiro, mas sua vida foi atravessada pela minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o. Na inf\u00e2ncia, brincava pegando carona com os caminh\u00f5es que transportavam o mineral perto de sua casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu pai trabalhou na minera\u00e7\u00e3o, se aposentou por invalidez e morreu aos 49 anos, com pneumoconiose \u2013 condi\u00e7\u00e3o que afeta os pulm\u00f5es e \u00e9 conhecida como doen\u00e7a dos mineiros. Um pouco antes da sua morte, uma mina explodiu na regi\u00e3o, matando 31 trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Como ex-presidente da associa\u00e7\u00e3o de moradores de Rio Carv\u00e3o e como cidad\u00e3o, Casagranda t\u00eam denunciado a polui\u00e7\u00e3o na comunidade. Como n\u00e3o v\u00ea melhoras, sente &#8220;revolta e injusti\u00e7a&#8221;. &#8220;Tiraram o lucro e deixaram o resto para tr\u00e1s.&#8221; A transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica ser\u00e1 capaz de alterar essa percep\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p><em>Esta reportagem foi produzida com o apoio da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) em parceria com a WRI Brasil.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Maur\u00edcio Frighetto in Deutsche Welle Com lei federal pr\u00f3pria de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, setor precisa resolver a polui\u00e7\u00e3o ambiental e clim\u00e1tica, al\u00e9m de encontrar alternativas para trabalhadores, cidades e ind\u00fastrias. 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