{"id":2941,"date":"2025-11-27T16:29:32","date_gmt":"2025-11-27T19:29:32","guid":{"rendered":"https:\/\/cristalvoxnews.com.br\/?p=2941"},"modified":"2025-11-27T16:30:48","modified_gmt":"2025-11-27T19:30:48","slug":"solastalgia-saiba-o-que-e-sofrimento-psicologico-ligado-a-crise-climatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cristalvoxnews.com.br\/?p=2941","title":{"rendered":"Solastalgia: saiba o que \u00e9 sofrimento psicol\u00f3gico ligado \u00e0 crise clim\u00e1tica"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Conceito criado em 2007 ganha relev\u00e2ncia global ao revelar como a degrada\u00e7\u00e3o ambiental afeta comunidades e desafia modelos tradicionais da psiquiatria<br>Mar\u00edlia Marasciulo, da Ag\u00eancia Einstein<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A degrada\u00e7\u00e3o acelerada de ecossistemas, somada \u00e0 sucess\u00e3o de eventos extremos, tem produzido um tipo espec\u00edfico de sofrimento psicol\u00f3gico: a solastalgia. O conceito descreve o impacto emocional de permanecer em um territ\u00f3rio que est\u00e1 mudando ou se deteriorando, uma esp\u00e9cie de \u201csaudade do presente\u201d que se tornou mais comum em comunidades afetadas por enchentes, secas e inc\u00eandios.<\/p>\n\n\n\n<p>Criado em 2007 pelo fil\u00f3sofo australiano Glenn Albrecht, o termo deixou de ser apenas uma met\u00e1fora e ganhou espa\u00e7o na literatura cient\u00edfica. Em outubro, um artigo publicado na Nature Mental Health apontou que esse sofrimento funciona como um marcador sens\u00edvel do desgaste ps\u00edquico provocado pela crise ambiental e aparece em sintomas como irritabilidade, ang\u00fastia, dist\u00farbios do sono e sensa\u00e7\u00e3o persistente de amea\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDar nome a esse sofrimento \u00e9 importante porque permite reconhec\u00ea-lo como algo leg\u00edtimo, que tem causa, contexto e hist\u00f3ria\u201d, afirma o psic\u00f3logo Lucas Marques, professor instrutor do departamento de Sa\u00fade Mental da Faculdade de Ci\u00eancias M\u00e9dicas da Santa Casa de S\u00e3o Paulo e um dos autores do artigo. \u201cNomear \u00e9 o primeiro passo para estudar, compreender e, principalmente, construir respostas de cuidado. A ci\u00eancia come\u00e7a a se mover quando percebe que aquilo que parecia um inc\u00f4modo individual, na verdade, \u00e9 um fen\u00f4meno social que est\u00e1 se tornando parte da experi\u00eancia contempor\u00e2nea.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para Marques, o conceito \u00e9 fundamental por deslocar o olhar da sa\u00fade mental do interior das pessoas para sua rela\u00e7\u00e3o com o territ\u00f3rio. \u201cPensar em sa\u00fade mental na crise clim\u00e1tica significa entender que cuidar da mente envolve tamb\u00e9m cuidar dos ecossistemas, das paisagens e das formas de vida que nos constituem\u201d, pontua.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cr\u00edticas ao modelo psiqui\u00e1trico<\/strong><br>O artigo argumenta que a solastalgia ainda n\u00e3o est\u00e1 incorporada a classifica\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas tradicionais, como o Manual Diagn\u00f3stico e Estat\u00edstico de Transtornos Mentais (DSM, na sigla em ingl\u00eas) e a Classifica\u00e7\u00e3o Internacional de Doen\u00e7as (CID). N\u00e3o por falta de relev\u00e2ncia, mas porque desafia categorias baseadas na ideia de sofrimento individual desconectado do ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO ponto central \u00e9 que o cuidado n\u00e3o \u00e9 apenas psicol\u00f3gico, \u00e9 relacional. Sofrimento coletivo exige cuidado coletivo\u201d, afirma o pesquisador. \u201cPrecisamos abandonar a ideia de que cuidar da sa\u00fade mental \u00e9 \u2018adaptar a pessoa ao que est\u00e1 dado\u2019. Muitas vezes, cuidar \u00e9 justamente o contr\u00e1rio: \u00e9 fortalecer a capacidade de imaginar e construir novos futuros coletivos poss\u00edveis.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Os sintomas relacionados \u00e0 solastalgia n\u00e3o diferem daqueles observados em condi\u00e7\u00f5es como ansiedade e depress\u00e3o, embora o tema que os desencadeia seja espec\u00edfico. Por isso, o ponto n\u00e3o \u00e9 transformar esse sofrimento causado pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas em diagn\u00f3stico, mas mensurar seu impacto na vida cotidiana.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO quanto isso nos paralisa e nos tira das nossas atividades do dia a dia \u00e9 que vai ditar se esse tema est\u00e1 levando a um sofrimento para o indiv\u00edduo ou para as pessoas \u00e0 volta daquele indiv\u00edduo que se aproxime a um transtorno psiqui\u00e1trico\u201d, afirma o psiquiatra Daniel de Paula Oliva, do Espa\u00e7o Einstein Bem-Estar e Sa\u00fade Mental, do Einstein Hospital Israelita.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora rejeite a cr\u00edtica de que o conceito evidencie lacunas do modelo psiqui\u00e1trico, Oliva concorda que o termo refor\u00e7a limites impostos por fatores externos \u2014 como as mudan\u00e7as ambientais \u2014 que afetam a sa\u00fade mental para al\u00e9m do que pode ser tratado individualmente. \u201cO termo pode servir n\u00e3o como um diagn\u00f3stico, mas como uma percep\u00e7\u00e3o de uma finitude dos recursos e do modelo de vida que a gente tem hoje\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa avalia\u00e7\u00e3o coincide com a dos autores do artigo, que veem a solastalgia como um marcador sens\u00edvel de desgaste ps\u00edquico. Eles observam que, assim como o corpo reage ao estresse cr\u00f4nico, as emo\u00e7\u00f5es podem indicar quando est\u00e3o pr\u00f3ximas de um ponto cr\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Outros transtornos relacionados<\/strong><br>A solastalgia dialoga com outras emo\u00e7\u00f5es vinculadas \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, como a ecoansiedade e o luto ecol\u00f3gico, cada vez mais presentes na literatura cient\u00edfica. Enquanto a primeira est\u00e1 ligada \u00e0 ang\u00fastia diante da incerteza clim\u00e1tica, o luto ecol\u00f3gico emerge de perdas concretas e irrevers\u00edveis, como a destrui\u00e7\u00e3o de ecossistemas, a morte de esp\u00e9cies ou a perda de territ\u00f3rios culturalmente significativos.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 a solastalgia ocupa uma posi\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria: trata do sofrimento no presente, ancorado no lugar onde se vive, ligado a um processo de perda que ainda n\u00e3o se completou, mas j\u00e1 se manifesta no cotidiano. \u201cEsses conceitos s\u00e3o complementares, e n\u00e3o intercambi\u00e1veis: juntos, eles delineiam um espectro de respostas psicol\u00f3gicas \u00e0s mudan\u00e7as ambientais que vai da ansiedade voltada para o futuro ao luto por perdas irrevers\u00edveis e ao sofrimento imediato de testemunhar a degrada\u00e7\u00e3o sem deslocamento\u201d, escrevem os autores do artigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse processo psicol\u00f3gico \u00e9 capaz de respostas distintas. \u201cO que pode, por um lado, afetar a nossa sa\u00fade mental, trazendo mais ansiedade e preocupa\u00e7\u00e3o, por outro pode gerar mobiliza\u00e7\u00e3o para a reconstru\u00e7\u00e3o de uma forma mais saud\u00e1vel de vida com nosso planeta, de mudan\u00e7a da rela\u00e7\u00e3o que a gente tem com o consumismo. Ent\u00e3o ela pode ser tanto um lugar de paralisia como tamb\u00e9m de mobiliza\u00e7\u00e3o\u201d, observa o psiquiatra do Einstein.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Solastalgia na pr\u00e1tica<\/strong><br>Embora o termo possa soar abstrato, seus efeitos s\u00e3o concretos em popula\u00e7\u00f5es submetidas a transforma\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas ou violentas do ambiente. No consult\u00f3rio, Oliva observa aumento de ang\u00fastia e preocupa\u00e7\u00e3o entre pacientes que relatam sensa\u00e7\u00e3o de futuro amea\u00e7ado. \u201cAinda veremos bastante tanto pessoas que perderam algu\u00e9m quanto as que precisaram mudar de lugar devido \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas\u201d, opina. \u201cOu at\u00e9 mesmo quem passa a lidar com uma rotina mais hostil, com calor, frio, inunda\u00e7\u00f5es, que v\u00e3o tensionando o dia a dia e adicionando preocupa\u00e7\u00f5es e adapta\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O artigo da Nature enfatiza que esse tipo de sofrimento tende a se concentrar em popula\u00e7\u00f5es j\u00e1 vulner\u00e1veis: povos ind\u00edgenas, moradores de periferias urbanas, comunidades ribeirinhas e agricultores familiares. Nessas regi\u00f5es, os impactos ambientais e sociais se combinam, gerando uma carga emocional desproporcional. \u201cReconhecer e responder \u00e0 solastalgia representa, portanto, um ato de justi\u00e7a epist\u00eamica: um passo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 legitima\u00e7\u00e3o de formas de sofrimento historicamente exclu\u00eddas dos paradigmas dominantes de cuidado\u201d, diz o texto.<\/p>\n\n\n\n<p>O desafio, portanto, \u00e9 transformar o conceito em ferramenta de compreens\u00e3o para antecipar impactos emocionais da crise ambiental. \u201cO cuidado come\u00e7a reconhecendo o territ\u00f3rio como parte da sa\u00fade\u201d, afirma Lucas Marques. \u201cA primeira mudan\u00e7a \u00e9 compreender que sa\u00fade mental n\u00e3o \u00e9 apenas um tema cl\u00ednico, \u00e9 um tema ecol\u00f3gico e social.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Na vis\u00e3o do psic\u00f3logo, \u00e9 preciso abordar o impacto emocional da crise clim\u00e1tica em escolas, pol\u00edticas p\u00fablicas, planejamento urbano e m\u00eddia. \u201cPrecisamos de cidades com acesso real \u00e0 natureza, comunidades fortalecidas, pol\u00edticas de prote\u00e7\u00e3o ambiental que considerem sa\u00fade e bem-estar como parte de seus objetivos e narrativas p\u00fablicas que reconhe\u00e7am que sentir dor diante da destrui\u00e7\u00e3o do mundo \u00e9 uma resposta humana profundamente compreens\u00edvel\u201d, afirma. \u201cA crise clim\u00e1tica \u00e9 real, mas as formas de enfrent\u00e1-la tamb\u00e9m s\u00e3o, e passam pelo reencontro entre cuidado, territ\u00f3rio e comunidade.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conceito criado em 2007 ganha relev\u00e2ncia global ao revelar como a degrada\u00e7\u00e3o ambiental afeta comunidades e desafia modelos tradicionais da psiquiatriaMar\u00edlia Marasciulo, da Ag\u00eancia Einstein A degrada\u00e7\u00e3o acelerada de ecossistemas, somada \u00e0 sucess\u00e3o de eventos extremos, tem produzido um tipo espec\u00edfico de sofrimento psicol\u00f3gico: a solastalgia. 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