{"id":2475,"date":"2025-11-19T12:53:01","date_gmt":"2025-11-19T15:53:01","guid":{"rendered":"http:\/\/cristalvox.imprensa.ws\/?p=2475"},"modified":"2025-11-19T12:53:03","modified_gmt":"2025-11-19T15:53:03","slug":"e-dizem-que-lutaram-pela-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cristalvoxnews.com.br\/?p=2475","title":{"rendered":"E dizem que lutaram pela democracia\u2026"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Percival Puggina<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nas encrencas t\u00edpicas de republiqueta bananeira em que o pa\u00eds se enfia, volta e meia a frase \u201cN\u00f3s, que lutamos pela democracia&#8230;\u201d \u00e9 pronunciada com poses de estadista por membros do cons\u00f3rcio governante. Que \u00e9 isso, companheiro? Pra cima de mim?<\/p>\n\n\n\n<p>Desmentidos a essa alegada luta pela democracia s\u00e3o abundantes, inclusive por participantes da atividade clandestina que, mais tarde, se tornaram honestos historiadores do per\u00edodo. A balela da luta armada pela democracia requer rela\u00e7\u00e3o inescrupulosa com a verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>O mais interessante \u2014 e quase ningu\u00e9m com menos de 70 anos sabe disso \u2014 \u00e9 que esses terroristas e guerrilheiros tiveram a oportunidade de proclamar \u00e0 na\u00e7\u00e3o, em cima dos acontecimentos, quem eram e o que pretendiam. O regime que combatiam lhes deu acesso a todos os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o em r\u00e1dio, TV e aos jornal\u00f5es de ent\u00e3o. Poucos momentos e raros documentos foram t\u00e3o importantes para a hist\u00f3ria do per\u00edodo quanto o que resumo a seguir.<\/p>\n\n\n\n<p>O m\u00eas de setembro de 1969 iniciou em plena vig\u00eancia do AI-5. O presidente Costa e Silva sofrera um AVC e o Brasil era governado por uma junta militar. Duas organiza\u00e7\u00f5es guerrilheiras, a ALN e o MR-8, haviam sequestrado, no dia 4, o embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick, e imposto condi\u00e7\u00f5es para libert\u00e1-lo: soltura de 15 presos pol\u00edticos e publica\u00e7\u00e3o e leitura, \u201cna \u00edntegra, pelos principais jornais, r\u00e1dios e televis\u00f5es\u201d (sic), de um manifesto que haviam redigido.<\/p>\n\n\n\n<p>Despachar os presos para os destinos combinados era f\u00e1cil, mas autorizar a ampla reprodu\u00e7\u00e3o da catilin\u00e1ria dos sequestradores era constrangedora rendi\u00e7\u00e3o\u2026 Contudo, a execu\u00e7\u00e3o do embaixador por quem o havia sequestrado seria um mal maior. E a junta militar se rendeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, ao longo do dia seguinte ao sequestro, em diferentes hor\u00e1rios, a na\u00e7\u00e3o inteira leu, ouviu e assistiu ao texto redigido por Franklin Martins, um dos autores da opera\u00e7\u00e3o. Oportunidade preciosa, dourada, \u00fanica, para guerrilheiros e terroristas dizerem por que lutavam, afirmarem seus compromissos e cobr\u00e1-los do governo, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Qual o qu\u00ea! O documento (leia a \u00edntegra em \u201cCharles Burke Elbrick\u201d na Wikipedia) foi uma xinga\u00e7\u00e3o em que os revoltosos falaram do que entendiam \u2014 ideologia, viol\u00eancia, revolu\u00e7\u00e3o \u2014 e do que faziam \u2014 \u201cjusti\u00e7amentos\u201d, sequestros, assaltos. N\u00e3o h\u00e1 uma \u00fanica men\u00e7\u00e3o \u00e0s palavras democracia e liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p>O texto acima reproduz artigo que escrevi em 11 de janeiro de 2016, relembrando os fatos de 1969. Aquela \u201cluta pela democracia\u201d, da qual tantos fazem fila para se vangloriar, s\u00f3 retardou o processo pol\u00edtico. E se tivessem vencido? Bem, teriam antecipado, para pior, em meio s\u00e9culo, o estrago que passaram a produzir a partir de 2003.<\/p>\n\n\n\n<p>Para saber a que dist\u00e2ncia andamos das liberdades inerentes \u00e0 democracia, sem as quais n\u00e3o h\u00e1 Estado de direito, pense nestes males de consumo for\u00e7ado, disponibilizados pelo regime em vigor. Pense em um Congresso de maioria intimidada e t\u00edmida, com medo at\u00e9 da sombra projetada pelo lado direito da Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes (STF) e dependente das emendas parlamentares proporcionadas pelo seu lado esquerdo (Pal\u00e1cio do Planalto). Pense em elei\u00e7\u00f5es com dogmas (em 2022 eram os dogmas das vacinas, das sagradas urnas sem impressora e da vida imaculada de Lula da Silva). Pense em censura (inclusive pr\u00e9via), em multid\u00f5es com tornozeleiras, em presos pol\u00edticos, em exilados, em criminaliza\u00e7\u00e3o das opini\u00f5es, em obstinado e obcecado controle das redes sociais e plataformas. Pense em direito penal do inimigo; pense em todas as perguntas l\u00f3gicas que ficam sem resposta e no sil\u00eancio com que tais sil\u00eancios s\u00e3o acolhidos. Pense, ent\u00e3o, no jornalismo militante, tamb\u00e9m ele, de exce\u00e7\u00e3o em exce\u00e7\u00e3o, tornando-se cortes\u00e3o do regime. E me digam se isso \u00e9 pr\u00f3prio de uma democracia.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem em seus melhores devaneios nos anos 60 do s\u00e9culo passado, Franklin Martins imaginaria t\u00e3o amplo elenco de sucessos para sua revolu\u00e7\u00e3o com os meios de ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Percival Puggina (80) \u00e9 arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (<a href=\"http:\/\/www.puggina.org\">www.puggina.org<\/a>), colunista de dezenas de jornais e sites no pa\u00eds. Autor de <em>Cr\u00f4nicas contra o totalitarismo<\/em>; <em>Cuba, a trag\u00e9dia da utopia<\/em>; <em>Pombas e Gavi\u00f5es<\/em>; <em>A Tomada do Brasil<\/em>. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Percival Puggina Nas encrencas t\u00edpicas de republiqueta bananeira em que o pa\u00eds se enfia, volta e meia a frase \u201cN\u00f3s, que lutamos pela democracia&#8230;\u201d \u00e9 pronunciada com poses de estadista por membros do cons\u00f3rcio governante. Que \u00e9 isso, companheiro? Pra cima de mim? 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